Dirigido por Daniel Stamm, A Caixa do Demônio tenta construir uma atmosfera de terror, mas acaba refém de sustos exagerados e de uma narrativa convencional demais para deixar sua marca no gênero.
Enquanto alguns cineastas conseguem revitalizar o terror com propostas originais e obras capazes de permanecer no imaginário do público, como Ari Aster, Jordan Peele e Curry Barker, existe um outro lado do gênero que se limita a reproduzir fórmulas conhecidas em busca de um entretenimento passageiro. São produções que até podem funcionar durante a sessão, mas que, ao não apresentar ideias particularmente interessantes ou uma abordagem própria, são rapidamente esquecidas. Infelizmente, A Caixa do Demônio se encaixa nessa categoria.
A trama acompanha Ellen, interpretada por uma contida Carla Gugino, uma mulher religiosa que, após a morte da mãe, se muda para uma pequena cidade do interior e acolhe Winthrop, seu primo distante, um veterano do Exército que não via havia muitos anos. À medida que os dois tentam reconstruir a relação, acontecimentos inexplicáveis começam a ameaçar suas vidas, obrigando Ellen a enfrentar uma força sobrenatural antes que seja tarde demais.
Como o próprio título sugere, A Caixa do Demônio mergulha no universo da possessão demoníaca, um subgênero explorado inúmeras vezes desde O Exorcista (1973, William Friedkin). O problema não está em revisitar convenções já conhecidas, mas em fazê-lo sem encontrar uma perspectiva capaz de renovar o material.

Katharine Isabelle em cena de “A Caixa do Demônio”- Divulgação Diamond Pictures Br
Quando o espectador reconhece os caminhos que a narrativa pretende percorrer, cabe ao filme construir uma atmosfera convincente, desenvolver seus personagens ou subverter as expectativas. Daniel Stamm até investe em uma estética claustrofóbica e desconfortável, mas não consegue sustentar essas intenções ao longo da projeção.
Visualmente, a produção aposta em uma paleta de tons pastéis, cinzas e marrons, contrastada pelo vermelho-rubi do sangue. A escolha contribui para a identidade visual do longa, mas não basta para compensar as fragilidades do roteiro. Ao privilegiar sustos e mistérios que só encontram explicação no terceiro ato, A Caixa do Demônio negligencia justamente aquilo que poderia conferir peso emocional à história: a relação entre Ellen e Winthrop.
O luto de Ellen pela morte da mãe, por exemplo, permanece superficial durante boa parte da narrativa e só ganha contornos mais explícitos perto do desfecho, como se o filme presumisse que o público já compreendeu suas implicações. O mesmo acontece com a culpa da protagonista por ter abandonado Winthrop no passado. A ideia de que seus conflitos internos estão ligados a essa decisão poderia sustentar um arco dramático interessante, mas acaba soterrada por revelações tardias, gritaria e confusão narrativa.
Há conceitos promissores em meio a esse caos. Um demônio que se alimenta de traumas e abusos oferece possibilidades perturbadoras, assim como a ideia de uma prisão mental associada a um garoto catatônico. Entretanto, com quase 110 minutos de duração, A Caixa do Demônio se arrasta entre sequências dramáticas pouco desenvolvidas e explicações insuficientes.

Cena de “A Caixa do Demônio”- Divulgação Diamond Pictures Br
Durante boa parte da sessão, a pergunta que prevalece é simples: o que está acontecendo? Quando as respostas finalmente chegam, porém, elas não produzem o impacto esperado. O mistério não é instigante a ponto de permitir que o espectador formule hipóteses consistentes, tampouco a revelação final é satisfatória o bastante para compensar a falta de clareza anterior.
O filme alterna entre o horror psicológico e o sobrenatural sem estabelecer uma relação convincente entre essas duas dimensões. A situação se agrava com o uso excessivo de jumpscares, que raramente encontram sustentação no desenvolvimento dramático. Em vez de intensificar o medo ou aprofundar o sofrimento dos personagens, os sustos existem por conta própria, apostando no choque imediato sem construir uma tensão duradoura. Falta uma catarse que transforme o horror em algo mais significativo, seja pela força das imagens, seja pela articulação entre os elementos sobrenaturais e os conflitos humanos.
O choque e o escatológico tornam-se, assim, os principais recursos de A Caixa do Demônio, mas a intensidade visual não equivale à profundidade. No terceiro ato, quando a narrativa exige que o público compreenda e acompanhe o confronto final, Ellen continua sendo uma personagem pouco desenvolvida. Sabemos que é religiosa e que se preocupa com o primo, mas suas motivações permanecem limitadas. Winthrop, por sua vez, é definido sobretudo pelos abusos que sofreu e por sua experiência militar, sem que essas informações se convertam em uma trajetória emocional suficientemente elaborada.
Nem mesmo os padres que surgem ao longo da trama conseguem acrescentar muito à narrativa. Suas participações parecem responder mais às exigências convencionais de uma história de possessão demoníaca do que a uma necessidade dramática genuína. São personagens que entram em cena porque o roteiro precisa deles, não porque sua presença aprofunde os conflitos ou transforme os rumos da história.
Ao final, A Caixa do Demônio não reúne força narrativa nem ousadia estética suficientes para se destacar entre as produções do gênero. Com maior atenção à construção dos personagens, uma exploração mais consistente dos traumas e um roteiro menos preocupado em chocar a qualquer custo, o longa poderia transformar suas boas ideias em uma experiência de terror mais envolvente. Da maneira como está, resta apenas um passatempo esquecível, que confunde sustos com medo e excesso com intensidade.
Distribuído pela Diamond Pictures BR, A Caixa do Demônio estreia em 22 de outubro.
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