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Giulia Be e Any Gabrielle em cena de "As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você"- Divulgação Paris Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘As Dez Vantagens de Morrer depois de Você’ é melodrama nitidamente jovem

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 27 de outubro de 2026
8 Min Leitura
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Giulia Be e Any Gabrielle em cena de "As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você"- Divulgação Paris Filmes
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Dirigido por Diego Freitas, As Dez Vantagens de Morrer depois de Você sofre com uma insistência no melodrama que limita a força de uma história mais ousada

O cinema brasileiro tem ampliado seu olhar para o público adolescente, afinal, na medida que eles compõem grande parte da audiência ativa nos cinema, deve-se investir em histórias que tratam essa fase da vida com maior maturidade. Dentro desta bolha, As Dez Vantagens de Morrer depois de Você busca explorar conflitos universais dessa etapa, como o luto, a descoberta pessoal e a construção da própria identidade. A proposta é interessante, embora nem sempre encontre a profundidade que promete.

Visualmente, As Dez Vantagens de Morrer depois de Você é um de seus maiores acertos. A iluminação, os neons e os contrastes de claro-escuro constroem uma atmosfera que traduz o estado emocional dos personagens, especialmente o de Gabriela, interpretada por Any Gabrielle. Em determinados momentos, a narrativa assume contornos oníricos, com cenários que se tornam sombrios e decadentes para representar a dor da protagonista. Diego Freitas demonstra domínio estético e encontra imagens expressivas para abordar o luto, ainda que essa força visual nem sempre encontre correspondência na construção dramática.

A história acompanha Gabriela após a morte inesperada de Julia, sua melhor amiga, que deixa dez cartas com missões para ajudá-la a sair da própria zona de conforto. Enquanto Julia é apresentada como um espírito livre, Gabriela se mostra introvertida, egocêntrica e presa ao próprio mundo. Ao longo da jornada, a protagonista conhece Lorena, uma jovem delinquente que se torna sua companheira e seu porto seguro. A premissa oferece uma oportunidade interessante para discutir como a perda pode nos aprisionar na própria dor e dificultar a percepção das experiências alheias.

Giulia Be e Any Gabrielle em cena de "As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você"- Divulgação Paris Filmes

Giulia Be e Any Gabrielle em cena de “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você”- Divulgação Paris Filmes

O problema é que As Dez Vantagens de Morrer depois de Você parece mais interessado em provocar emoções do que em desenvolvê-las organicamente. A insistência no sofrimento é tamanha que, em determinados momentos, a própria encenação parece cochichar para o espectador: “Chore, chore só um pouquinho. Olha só que tristeza”. A transformação dos cenários e as manifestações constantes de angústia reforçam sentimentos que já estão claros, fazendo com que a intensidade emocional se aproxime mais da insistência do que da comoção genuína.

A jornada pelas missões deveria ajudar Gabriela a se soltar e a vivenciar a própria juventude. Entretanto, as tarefas não transmitem a sensação catártica ou transformadora que realmente deveria. Em vez de aprofundar a experiência emocional da protagonista, o filme conduz sua trajetória por situações previsíveis, marcadas por gritos, receios e reações que pouco acrescentam ao desenvolvimento da personagem. Para quem se identifica com essa abordagem, o recurso pode funcionar; para os demais, a insistência produz cansaço em vez de comoção.

Narrativamente, As Dez Vantagens de Morrer depois de Você segue caminhos bastante familiares. A jovem introvertida que precisa se abrir para o mundo, descobrir novas possibilidades e aprender a gostar de si mesma é uma figura recorrente no drama adolescente. Em alguns momentos, a abordagem remete a Malhação, não necessariamente pela temática, mas pela maneira previsível com que os conflitos são conduzidos. O problema não está em recorrer às convenções do gênero, e sim em não aprofundá-las o suficiente para lhes conferir uma perspectiva própria.

Juliano Floss em cena de "As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você"- Divulgação Paris Filmes

Juliano Floss e Pâmela Germano em cena de “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você”- Divulgação Paris Filmes

Gabriela é uma personagem deliberadamente falha, mas o roteiro nem sempre transforma seu egocentrismo em um conflito dramático consistente. Tão centrada na própria dor, a protagonista acaba presa a uma jornada repetitiva, na qual cada nova carta desencadeia uma reação emocional semelhante antes de ela finalmente cumprir a tarefa.

A atuação de Any Gabrielle, por vezes pouco expressiva diante das nuances exigidas pela personagem, também não ajuda a conferir maior profundidade a esse processo. Com isso, o amadurecimento de Gabriela parece mais uma sequência de etapas previstas pelo roteiro do que uma transformação verdadeiramente conquistada.

As melhores passagens surgem quando Gabriela conversa com a falecida Julia, em interações espirituosas que introduzem leveza e questionamentos genuínos; quando sua relação com Lorena evidencia o contraste entre o sol que Julia representava e o “tempo nublado” associado à nova amiga; ou quando dialoga com a mãe, em momentos de maior maturidade emocional. Nessas cenas, o filme encontra uma sutileza que faz falta ao restante da narrativa, demonstrando que a história poderia explorar seus personagens com mais nuances e menos dependência do melodrama.

Adaptado do livro de Fernanda de Castro Lima, As Dez Vantagens de Morrer depois de Você demonstra boas intenções ao abordar temas delicados sem tratar a adolescência como uma experiência superficial. Ainda assim, sua ambição estética não se traduz em igual ousadia narrativa. Há imagens marcantes, mas poucas interações que permaneçam na memória para além do impacto imediato. Não por acaso, quase um mês depois da sessão, recordo com mais facilidade determinadas sequências visuais do que os diálogos e os conflitos que deveriam sustentá-las.

Any Gabrielle em cena de "As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você"- Divulgação Paris Filmes

Any Gabrielle em cena de “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você”- Divulgação Paris Filmes

A produção também transforma São Paulo em parte de sua identidade visual, com passagens por regiões como a Liberdade e a Avenida Paulista. Esse apelo estético contribui para a experiência, mas não resolve as limitações do roteiro.

No fim, As Dez Vantagens de Morrer depois de Você confunde intensidade emocional com profundidade dramática: é colorido, estilizado e disposto a provocar lágrimas, mas pouco arriscado na maneira como desenvolve seus personagens e conflitos.

Para ir além de um drama adolescente convencional, o filme precisava confiar menos no excesso e investir mais na complexidade de suas próprias ideias, que, embora promissoras, não chegam a se tornar marcantes.

Distribuído pela Paris Filmes, As Dez Vantagens de Morrer depois de Você chega aos cinemas em 29 de outubro.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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