O escritor e jornalista Ruy Castro venceu o Livro do Ano da 68ª edição do Prêmio Jabuti com Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, publicado pela Companhia das Letras. O anúncio aconteceu nesta terça-feira (27), durante cerimônia na Sala São Paulo, na capital paulista. A obra também conquistou o prêmio na categoria Biografia e Reportagem.
O livro reconstitui o cotidiano do Rio de Janeiro entre 1935 e 1945, período em que a guerra na Europa repercutiu na política e na vida dos brasileiros. A narrativa acompanha as disputas políticas durante a ditadura de Getúlio Vargas e a mobilização nacional pela entrada do Brasil no conflito.
Ao combinar pesquisa histórica e relatos do cotidiano carioca, Castro mostra como acontecimentos internacionais transformaram a cidade. A obra recupera um período marcado por tensões políticas, mudanças sociais e pela aproximação do Brasil com a guerra.
Como vencedor do Livro do Ano, Ruy Castro recebe R$ 70 mil, além de uma viagem para participar de uma das quatro feiras internacionais previstas no regulamento para 2027: Londres, Bolonha, Frankfurt ou Guadalajara. O pacote inclui passagem, hospedagem, diárias, credencial e agenda de divulgação da obra.
Pedro Pacífico vence categoria inédita de Cultura Digital
A 68ª edição do Jabuti também marcou a estreia da categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital. O vencedor foi Pedro Pacífico, criador do canal Bookster, conhecido por divulgar literatura, compartilhar recomendações e promover conversas sobre livros nas redes sociais.
Pacífico recebeu a estatueta das mãos do jogador Gustavo Scarpa, que também compartilha leituras com seus seguidores. A nova categoria reconhece pessoas e iniciativas que contribuem para a formação de leitores em ambientes digitais, considerando a qualidade dos conteúdos, o engajamento e o impacto cultural.
A disputa recebeu 402 indicações válidas. Um colegiado de 12 jurados selecionou dez semifinalistas, que avançaram para uma votação popular. Desse processo saíram os cinco finalistas.
A inclusão da categoria reflete a presença crescente das plataformas digitais na divulgação de livros e na criação de comunidades de leitores. Criadores de conteúdo passaram a ocupar espaços importantes na recomendação de obras e na aproximação entre autores, editoras e público.
Segundo Hubert Alquéres, curador do Prêmio Jabuti, a novidade reconhece quem mobiliza leitores e cria comunidades em torno da literatura. Nesta edição, a premiação também ampliou a disputa pelo Livro do Ano para incluir vencedores das categorias destinadas a escritores estreantes em Poesia e Romance.
Prêmio recebeu mais de 4,6 mil inscrições
Nas outras 22 categorias, o Jabuti recebeu 4.675 inscrições de obras e projetos. A premiação está organizada em quatro eixos: Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Os vencedores de cada categoria recebem R$ 5 mil, além da estatueta.
A Câmara Brasileira do Livro (CBL), responsável pela organização, também prevê ações de divulgação das obras premiadas em eventos nacionais e internacionais. A iniciativa busca ampliar a circulação dos títulos e aproximá-los de leitores, profissionais do mercado editorial e potenciais parceiros em outros países.
Para Sevani Matos, presidente da CBL, o reconhecimento ajuda a dar visibilidade à diversidade da produção brasileira e cria oportunidades para que os livros alcancem novos públicos.
A cerimônia foi apresentada pelos jornalistas Michelle Loreto e Fabrício Battaglini. A programação também contou com apresentação da SP Chamber Orchestra (SPCO), conduzida pela maestrina Giovanna Elias, fundadora, diretora artística e regente titular da formação.
Lygia Bojunga recebe homenagem como Personalidade Literária
A noite também homenageou a escritora Lygia Bojunga, escolhida como Personalidade Literária de 2026. O reconhecimento coincide com os 50 anos de A Bolsa Amarela, um dos títulos mais conhecidos de sua trajetória.
Publicado em 1976, o livro acompanha Raquel, uma menina que encontra na imaginação e na escrita formas de expressar desejos e conflitos. A obra tornou-se uma referência da literatura brasileira para crianças e jovens ao abordar a infância a partir da perspectiva da própria personagem.
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1932, Lygia estreou na literatura em 1972 com Os Colegas. Depois, publicou títulos como Angélica, Corda Bamba e A Bolsa Amarela, construindo uma obra marcada pela liberdade imaginativa e pela atenção aos sentimentos e às inquietações da infância.
A escritora também conquistou reconhecimento internacional. Em 1982, recebeu o prêmio Hans Christian Andersen e, em 2004, o Astrid Lindgren Memorial Award, duas importantes distinções dedicadas à literatura para crianças e jovens.
Lygia não compareceu pessoalmente à cerimônia, mas enviou uma mensagem de agradecimento e uma carta escrita à mão. No texto, resumiu sua reação à homenagem com a frase: “Que belo incentivo este!”. A escritora Ninfa Parreiras a representou no evento.
Ruy Castro e a história cultural brasileira
Nascido em Caratinga, Minas Gerais, em 1948, Ruy Castro começou a carreira jornalística em 1967. Ao longo de sua trajetória, construiu uma bibliografia dedicada a personagens e movimentos fundamentais da cultura brasileira.
Entre seus trabalhos estão biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, além de livros sobre a bossa nova e a história cultural do Rio de Janeiro. Em 2022, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
O escritor também recebeu distinções como o Prêmio Machado de Assis e o próprio Jabuti. Com Trincheira tropical, volta a explorar a história do Rio por meio de personagens, acontecimentos políticos e transformações sociais que marcaram o século XX.
A vitória na principal categoria do Jabuti coloca novamente a história carioca no centro do reconhecimento literário nacional. Ao recuperar a relação entre a cidade e a Segunda Guerra Mundial, o livro apresenta um retrato de como um conflito internacional atravessou a vida cotidiana brasileira.
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