Dirigido por Michael Haneke, A Professora de Piano se mantém um clássico ainda mais atual do que na época de seu lançamento.
As obras de arte que resistem ao teste do tempo são aquelas capazes de realizar uma leitura social e política que ultrapassa a época em que foram produzidas. Mais do que retratar um período específico, constroem uma linguagem estética que permanece relevante independentemente do momento em que são revisitadas. É exatamente isso que acontece com A Professora de Piano, ao acompanhar a relação entre Erika, uma rígida professora de piano de um conservatório, e seu jovem aluno Walter Klemmer.
Antes desta cabine de imprensa proporcionada pela FILMICCA, eu nunca havia assistido ao filme e, diante de toda a fama sobre seu impacto, esperava algo muito mais explícito do que realmente encontrei. Evidentemente, a narrativa aborda uma relação marcada por repressão, desejo e erotismo, incluindo uma intensa sequência no banheiro e discussões sobre BDSM e sexualidade que ainda hoje permanecem cercadas de tabus. Entretanto, em termos de explicitude, a obra está longe de um filme como Ninfomaníaca (2013, Lars von Trier).
Na realidade, Haneke constrói seu impacto justamente pela sugestão. Além de uma breve sequência envolvendo um vídeo erótico, a nudez aparece apenas de forma pontual, inclusive em uma das cenas menos erotizadas do longa. A força de A Professora de Piano está naquilo que escolhe não mostrar. O sexo oral, por exemplo, nunca é exibido diretamente; acompanhamos apenas as reações de Walter e os movimentos da cabeça de Erika em um longo plano-sequência, recurso recorrente na encenação de Haneke.

Isabelle Huppert, Annie Girardot, e Benoît Magimel em cena de “A Professora de Piano”- Divulgação Filmicca
Ao recorrer constantemente a planos-sequência, especialmente nos momentos mais desconfortáveis, o diretor aprisiona a audiência dentro da cena. Somos transformados em voyeurs dessa espiral de obsessão, repressão e desejo, incapazes de desviar o olhar mesmo quando tudo indica que deveríamos fazê-lo.
Muito desse impacto também passa pela atuação magistral de Isabelle Huppert, em um dos melhores trabalhos de sua carreira. Haneke revela gradualmente as peças desse quebra-cabeça psicológico, mas somente expõe sua verdadeira dimensão a partir da metade do segundo ato, quando o filme ganha uma intensidade crescente que se mantém até sua devastadora cena final.
Desde os primeiros minutos, a relação entre Erika e sua mãe já demonstra sua natureza profundamente doentia. Enquanto a mãe a chama constantemente pelo primeiro nome, Erika responde sempre com “mamãe”. Essa simples diferença de tratamento sintetiza toda a dinâmica entre as duas: uma relação simultaneamente distante e sufocante. Mais adiante, quando Erika, privada de qualquer possibilidade de alívio emocional, deita sobre a mãe, declara seu amor e a beija, a sensação é de absoluto desconforto. Ainda assim, o roteiro constrói com tanta precisão seu estado psicológico que compreendemos perfeitamente como ela chegou àquele ponto.
Se hoje A Professora de Piano continua sendo um estudo poderoso sobre repressão, desejo e os limites das relações afetivas, é fácil imaginar o impacto que sua estreia provocou em 2001. Poucos filmes abordam um tema tão delicado com tamanha franqueza e brutalidade, e Haneke nunca suaviza esse desconforto, criando cenas que flertam com o escatológico, mas que constantemente desafiam nossos julgamentos morais.

Isabelle Huppert em cena de “A Professora de Piano”- Divulgação Filmicca
Outro grande mérito da obra está no contraste entre a imagem pública de Erika, uma professora disciplinada, elegante e aparentemente inabalável, e seus desejos íntimos, que, isoladamente, não possuem nada de extraordinário. Eles apenas parecem escandalosos porque surgem dentro de um contexto de intensa repressão, levando o próprio espectador a compartilhar, inicialmente, o julgamento de Walter: “Como assim essa mulher deseja ser amarrada?”.
No terceiro ato, quando Erika finalmente vê seus desejos concretizados da maneira mais perturbadora possível, Haneke obriga o público a confrontar seus próprios limites. Mais do que um estudo sobre sexualidade, A Professora de Piano transforma-se em um espelho das hipocrisias de uma burguesia moralmente rígida, que condena aquilo que secretamente deseja. Passados mais de vinte anos de seu lançamento, essa discussão permanece surpreendentemente atual.
Com distribuição da FILMICCA, A Professora de Piano retorna aos cinemas em versão restaurada no dia 30 de julho.
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