Dirigido por Hayao Miyazaki, Nausicaä do Vale do Vento é uma jornada épica que discute meio ambiente e amor à vida, com uma poesia que raramente o cinema conseguiu repetir
Na faculdade, tive contato com o Atlas Mnemosyne, obra inacabada de Aby Warburg que investiga como imagens e temas se repetem ao longo da história, seja por sua estética, seja por sua temática, ensinando que em teoria, nada se inventa, tudo se copia. Ao assistir Nausicaä do Vale do Vento pela primeira vez, 41 anos após seu lançamento, não pude deixar de notar ecos em produções mais recentes que carrego frescas na memória, como Avatar (2009, James Cameron) e Mickey 17 (2025, Bong Joon-ho). Apesar de seus temas ecológicos estarem ainda presentes, por conta destas produções terem sido realizadas após a criação de Miyazaki, é inegável a influência que a obra apresenta no cinema mundial até os dias de hoje.
Baseado no mangá escrito pelo próprio Miyazaki, o filme se passa em um mundo pós-apocalíptico, onde uma jovem princesa luta para proteger seu povoado, ao mesmo tempo em que descobre a verdade sobre a misteriosa floresta tóxica que aterroriza o planeta.

Cena de Nausicaä do Vale dos Ventos- Divulgação Ghibli Fest
Há inúmeros caminhos possíveis para uma crítica desse filme. Podemos falar sobre a questão ambiental, um tema central em toda a cinematografia do Studio Ghibli e retomado de forma ainda mais potente em Princesa Mononoke (1997, Hayao Miyazaki). Também podemos destacar a importância do pacifismo mesmo em meio à guerra constante entre os homens, o protagonismo feminino tão característico da obra de Miyazaki, a força simbólica da floresta azul e claustrofóbica em contraste com o dourado acolhedor do Vale do Vento, ou ainda o simbolismos dos insetos, sendo enxergados inicialmente como pragas, para ao final serem a salvação da humanidade.
O que impressiona é como Nausicaä aborda tantas questões que já haviam sido estudadas antes, principalmente na literatura e na mitologia como um todo, mas que por meio do olhar aguçado do cineasta, ganhou uma nova vida, atualizando arquétipos universais em sua heroína, ao mesmo tempo que dialoga tanto com contos de fadas e lendas japonesas. A pequena raposa que acompanha Nausicaä ecoa figuras míticas tradicionais, enquanto a jornada da protagonista se constrói como um conto moderno sobre coragem, empatia, preservação ambiental e sacrifício. O público jovem pode se encantar com os visuais esplêndidos e as sequências de ação bem coreografadas, mas são os adultos que captam o peso filosófico da narrativa.

Cena de Nausicaä do Vale dos Ventos- Divulgação Ghibli Fest
Chamar a floresta de “Mar da Corrupção” e desejar queimá-la para retomar o domínio humano é um gesto assustadoramente próximo da nossa realidade. Basta olhar para as notícias sobre o desmatamento da Amazônia. Nesse sentido, Nausicaä do Vale do Vento vai além de um épico ambientalista. É também ação, comédia precisa, drama profundo e manifesto pacifista, tendo tido um sucesso tão grande que levou à criação do Studio Ghibli, reunindo a mesma equipe que viria a transformar a animação um símbolo mundial.
Em suas quase duas horas de duração, a produção não oferece o abraço apertado de Meu Amigo Totoro (1988, Hayao Miyazaki), mas sim o desconforto necessário para discutir um tema urgente. Como Warburg apontaria, certos gestos e imagens retornam porque ainda precisamos deles, e mesmo quarenta anos depois, Nausicaä do Vale do Vento continua sendo esse lembrete incômodo e necessário: diante da destruição iminente, talvez a coragem, a bondade e o pacifismo sejam nossas últimas esperanças, algo que Miyazaki até hoje discute em suas obras com uma poesia única, que raramente foi duplicado em outra produção.
Nausicaä do Vale do Vento foi assistido no Sato Cinema, na semana de pré-estreia do Festival Ghibli. A primeira parte do festival ocorrerá entre os dias 18 de Setembro e 01 de Outubro, e passará 14 obras do estúdio incluindo Memórias de Ontem (1991, Toshio Suzuki), Eu Posso Ouvir o Oceano (1993, Tomomi Mochizuki), entre tantos outros clássicos.
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