O documentário brasileiro e indígena YANUNI alcançou 1,5 milhão de visualizações no YouTube apenas três dias após seu lançamento. O filme chegou gratuitamente à plataforma em 5 de setembro, Dia da Amazônia, no canal de Leonardo DiCaprio, que também participa da produção.
A repercussão leva para uma audiência internacional as histórias de pessoas envolvidas diretamente na defesa da floresta e dos povos indígenas. O longa acompanha principalmente a trajetória da cacica Juma Xipaia e o trabalho de Hugo Loss, agente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Segundo os dados divulgados pela produção, o documentário chegou a registrar uma média superior a 35 mil visualizações por hora desde a publicação.
A marca acontece depois de uma trajetória internacional iniciada no cinema. Desde a estreia no encerramento do Tribeca Film Festival, em Nova York, YANUNI passou por mais de 65 festivais e recebeu mais de 25 prêmios.
O filme também integrou a shortlist do Oscar 2026 na categoria de Melhor Documentário de Longa-Metragem.
Dirigido por Richard Ladkani, YANUNI acompanha diferentes frentes de atuação na defesa da floresta. De um lado, está Juma Xipaia, liderança indígena cuja trajetória começou na organização das comunidades e na defesa dos territórios.
O documentário acompanha sua atuação no movimento indígena e em movimentos sociais, passando pelas lutas de base até sua chegada a espaços nacionais de decisão e representação em Brasília.
A história também mostra os conflitos provocados pelo garimpo, pela mineração, pelo desmatamento e por grandes empreendimentos que ameaçam territórios indígenas.
Ao lado de Juma, o filme acompanha Hugo Loss, agente do Ibama que liderava operações contra o garimpo e a destruição da floresta.
Embora atuem em contextos diferentes, os dois personagens representam frentes distintas de uma mesma questão: a defesa dos territórios, da vida e do futuro da Amazônia.
A trajetória de Juma também é marcada por ameaças e tentativas de assassinato. Posteriormente, ela assumiu o cargo de Secretária Nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas, no Ministério dos Povos Indígenas.
O documentário acompanha os desafios de ocupar um espaço institucional de poder sem romper os vínculos com o território e com as comunidades que deram origem à sua atuação.
Ao mesmo tempo, a produção registra um período particularmente pessoal de sua vida, marcado pela chegada da maternidade em meio às ameaças e às responsabilidades de uma trajetória dedicada à resistência.
É nesse encontro entre a dimensão política e a experiência pessoal que YANUNI constrói seu olhar sobre Juma.
O filme parte de sua história e da atuação de Hugo Loss para ampliar a discussão sobre a proteção da Amazônia. A proposta é mostrar uma mobilização que envolve povos indígenas, comunidades, agentes públicos e diferentes movimentos sociais.
O título se apresenta como um retrato da resistência indígena e da defesa da floresta, mas a narrativa não se concentra exclusivamente em uma personagem.
A produção procura mostrar uma rede de pessoas e movimentos que atuam em diferentes frentes para proteger a Amazônia. A questão ambiental aparece ligada à defesa dos territórios e dos modos de vida dos povos que vivem na região.
Para isso, Richard Ladkani constrói uma narrativa que combina as experiências de Juma e Hugo com questões maiores, como a crise climática e os conflitos ambientais.
Produzido pela Malaika Pictures, em associação com Appian Way, Nia Tero, Age of Union e Tellux Group, YANUNI também conta com o apoio do Instituto Austríaco de Cinema.
Leonardo DiCaprio participa da produção ao lado de Juma Xipaia. A produção executiva reúne nomes como Eric Terena, Dax Dasilva, Joanna Natasegara, Laura Nix, Martin Choroba e Philipp Schall.
Assista ao documentário completo *YANUNI* no YouTube
A trilha sonora tem composição de H. Scott Salinas, com participação de Katú Mirim e vocais de Djuena Tikuna.
Crítica: Um olhar sobre a Amazônia, mas não o único
A força de YANUNI também está em provocar uma discussão que ultrapassa o próprio documentário. A produção apresenta uma perspectiva definida sobre os conflitos amazônicos, centrada na defesa dos territórios indígenas e no combate ao garimpo, ao desmatamento e a grandes empreendimentos.
Essa perspectiva é legítima, mas a realidade da Amazônia é mais complexa do que uma divisão entre quem protege a floresta e quem ameaça seus territórios. Existem diferentes povos, organizações e lideranças indígenas, com posições distintas sobre mineração, desenvolvimento econômico e uso dos recursos naturais.
Há também uma ampla rede internacional de financiamento voltada à conservação ambiental e à defesa dos direitos indígenas. Entre as organizações associadas à produção de YANUNI estão entidades com atuação internacional na Amazônia, como Nia Tero e Age of Union. O Instituto Juma, fundado por Juma Xipaia, também recebeu financiamento internacional para projetos de proteção territorial e cultural.
Essas conexões não significam, por si só, que exista interferência indevida ou que a atuação de Juma seja determinada por interesses estrangeiros. No entanto, ajudam a compreender a dimensão política, econômica e internacional que envolve atualmente a pauta amazônica.
A própria realidade indígena não é homogênea. Existem comunidades que defendem a preservação integral de seus territórios e outras que apoiam atividades econômicas, inclusive a exploração mineral. Reportagens recentes também registraram conflitos entre indígenas com posições diferentes sobre o garimpo.
É justamente essa complexidade que não aparece integralmente em YANUNI. O documentário escolhe acompanhar personagens que estão diretamente envolvidos na defesa da floresta e constrói sua narrativa a partir desse ponto de vista. Isso não diminui necessariamente o valor da obra, mas é importante que o espectador saiba que está diante de um recorte.
A participação de Leonardo DiCaprio como produtor e o lançamento do filme em seu canal no YouTube ampliam ainda mais esse alcance. A estratégia transforma uma história originalmente ligada aos territórios amazônicos em uma narrativa capaz de chegar a uma audiência global.
O resultado é uma produção que merece atenção tanto pela história de Juma Xipaia e Hugo Loss quanto pelas perguntas que deixa fora de quadro. Quem financia as diferentes agendas amazônicas? Quais interesses econômicos estão em jogo? Como diferentes comunidades indígenas enxergam o desenvolvimento de seus territórios? E até que ponto uma narrativa internacional consegue representar a diversidade de posições existentes na própria Amazônia?
YANUNI não responde a todas essas perguntas — e talvez nem tenha essa pretensão. Seu mérito está em colocar determinadas vozes no centro do debate. Para compreender a Amazônia em toda a sua dimensão, porém, é necessário ouvir também outras vozes e observar os interesses que disputam o futuro da região.
Ficha técnica
Filme: YANUNI
Direção: Richard Ladkani
Roteiro: Richard Ladkani
Elenco: Juma Xipaia e Hugo Loss
Produção: Juma Xipaia, Leonardo DiCaprio, Anita Ladkani, Richard Ladkani, Jennifer Davisson e Phillip Watson
Produção executiva: Dax Dasilva, Joanna Natasegara, Laura Nix, Eric Terena, Martin Choroba e Philipp Schall
Cinegrafia: Richard Ladkani
Segundo câmera: Fábio Nascimento
Edição: Georg Michael Fischer, bfs
Composição: H. Scott Salinas
Trilha sonora: Katú Mirim
Vocais: Djuena Tikuna
Países: Áustria, Brasil, Estados Unidos, Canadá e Alemanha
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