Os filmes de zumbi sempre serviram como metáfora para discutir os medos e contradições da sociedade. Foi assim que George A. Romero revolucionou o gênero com A Noite dos Mortos-Vivos e transformou mortos-vivos em símbolos de consumismo, desigualdade e alienação. Agora, quase uma década após a morte do cineasta, sua filha, Tina Romero, presta uma homenagem ao legado do pai com Drag Queens contra Zumbis (Queens of the Dead), que estreia nesta terça-feira (1º) no Telecine.
Disponível via Globoplay, Prime Video e operadoras, além de chegar ao Telecine Premium às 22h, o longa não tenta reproduzir a fórmula criada por Romero. Em vez disso, aposta em uma identidade própria ao transportar o apocalipse zumbi para o coração da cena queer de Nova York, onde drag queens, performers e frequentadores de casas noturnas precisam sobreviver a uma epidemia tão absurda quanto divertida.
O resultado é uma comédia de terror assumidamente camp, que troca o clima opressivo por neon, glitter, humor afiado e personagens maiores do que a vida.
Desde o anúncio do projeto, as comparações com George Romero eram inevitáveis. Felizmente, Tina Romero parece entender que competir com o pai seria impossível.
O filme funciona muito melhor quando é encarado como uma carta de amor ao universo criado por Romero do que como uma tentativa de reinventar o gênero. Há diversas referências aos clássicos da franquia …of the Dead, incluindo a participação especial do lendário maquiador Tom Savini e trechos da trilha sonora de Day of the Dead.
Ao mesmo tempo, Tina imprime sua própria personalidade, substituindo o terror pessimista pelo espírito irreverente da cultura drag.
Quem espera um banho de sangue no nível dos filmes clássicos de Romero pode sair um pouco decepcionado.
Embora existam ataques, mordidas e algumas cenas violentas, Drag Queens contra Zumbis prefere investir na comédia do que no gore.
Diversas mortes acontecem fora de quadro ou são mostradas apenas parcialmente, tornando o longa bem mais contido visualmente do que boa parte dos filmes do subgênero.
Essa escolha pode frustrar fãs mais tradicionais, mas deixa claro qual é a prioridade da diretora: explorar as relações entre os personagens e criar uma grande celebração da cultura LGBTQIA+.
As melhores cenas surgem justamente das trocas entre as drag queens, repletas de ironia, provocações e humor ácido, ainda que em alguns momentos os diálogos prolongados diminuam a sensação de urgência diante da ameaça zumbi.
Assim como o pai fazia, Tina Romero também utiliza os mortos-vivos para comentar aspectos da sociedade contemporânea.
Aqui, os zumbis aparecem completamente hipnotizados pelos próprios celulares, caminhando pelas ruas enquanto gravam vídeos, fazem selfies e parecem incapazes de abandonar as redes sociais mesmo depois de mortos.
A crítica é menos mordaz do que nos filmes clássicos de George Romero, mas funciona como uma atualização divertida do consumismo retratado em Dawn of the Dead, substituindo os shoppings pelos algoritmos e pela cultura dos influenciadores.
O elenco demonstra grande sintonia e abraça completamente o tom exagerado da produção.
Nina West é um dos destaques, ao lado de Jaquel Spivey, Jack Haven e Katy O’Brian.
Ainda assim, a quantidade elevada de personagens faz com que alguns arcos recebam pouco desenvolvimento, dificultando um envolvimento emocional maior quando o caos finalmente toma conta da festa.
Boa recepção nos festivais
Mesmo antes da estreia comercial, Queens of the Dead acumulou reconhecimento no circuito de festivais.
O filme venceu o Audience Choice Award na categoria Horror no Heartland International Film Festival, conquistou o Audience Award de narrativa no Tribeca Festival e também recebeu o prêmio de Melhor Filme LGBTQ+ Independente no Film Threat Award This!, além de indicações ao Queerties.
O reconhecimento reforça que a produção encontrou seu público justamente por assumir sem receio sua mistura de horror, humor e representatividade.
Drag Queens contra Zumbis vale a pena?
Drag Queens contra Zumbis não pretende ser o novo clássico definitivo dos filmes de mortos-vivos, nem tenta repetir o impacto revolucionário da obra de George Romero.
Seu objetivo é outro: oferecer uma experiência divertida, caótica e colorida, celebrando a cultura drag enquanto brinca com um dos gêneros mais tradicionais do cinema de horror.
Quem procura terror pesado talvez sinta falta de mais violência gráfica e tensão. Já quem estiver disposto a embarcar em uma mistura de comédia, música, cultura queer e zumbis encontrará uma produção simpática, espirituosa e consciente de sua proposta.
Serviço
Drag Queens contra Zumbis (Queens of the Dead)
- Estreia no streaming: 1º de julho
- Onde assistir: Telecine (via Globoplay, Prime Video e operadoras)
- Estreia na TV: 1º de julho, às 22h, no Telecine Premium
- Direção: Tina Romero
- Elenco: Jack Haven, Jaquel Spivey, Katy O’Brian e Nina West
- Duração: 99 minutos
- Classificação: 16 anos
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!
Leia mais
- Entrevista exclusiva com Hugo Haddad sobre ‘Brasil 70: A Saga do Tri’, Werner Herzog e os bastidores da série: “Maior de todos os tempos”
- Crítica: ‘Cinco da Tarde’ transforma luto, memória e solidão em poesia visual
- Crítica: ‘Anatomia do Caos’ faz rir do absurdo de uma passado que não deve ser esquecido



