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Supergirl muda sua origem no novo DCU, fortalece a relação com Krypto e cria uma base inédita para o futuro do universo cinematográfico da DC.
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Supergirl’ – Milly Alcock brilha, mas o DCU ainda joga seguro demais

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 24 de junho de 2026
8 Min Leitura
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divulgação / Warner Bros Pictures Brasil
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Dirigido por Craig Gillespie, Supergirl continua o DCU que finalmente começa a encontrar sua identidade, apesar de alguns tropeços, abre caminhos para novas possibilidades.

No atual estágio do DCU, é praticamente impossível analisar Supergirl sem considerar o contexto em que a produção foi lançada. Originalmente, o projeto não foi concebido como o segundo capítulo cinematográfico do universo comandado por James Gunn, mas acabou assumindo essa posição por estar mais avançado que outras produções em desenvolvimento após o sucesso de Superman (2025, James Gunn).

Livremente inspirado na graphic novel Supergirl: Mulher do Amanhã (2021, Tom King), o filme preserva a essência da jornada apresentada nos quadrinhos, mas abandona parte dos elementos que tornaram a obra tão especial. Diversos momentos contemplativos e intimistas são reduzidos ou eliminados em favor de uma abordagem mais grandiosa e voltada para a ação. Sequências marcantes da HQ, como o confronto contra o dragão e os momentos de vulnerabilidade da protagonista, perdem espaço para um ritmo mais acelerado.

Nos quadrinhos, ilustrados de forma brilhante pela brasileira Bilquis Evely, a narrativa se desenvolve ao longo de oito edições, permitindo que a história respire e que seus momentos reflexivos tenham o mesmo peso das cenas de ação. No cinema, especialmente dentro de um universo compartilhado que ainda busca conquistar o público, essa abordagem mais contemplativa talvez fosse um risco difícil de assumir. Sendo assim, a adaptação sacrifica parte da profundidade emocional que diferenciava o material original.

Eve Ridley em cena de “Supergirl”- Divulgação Warner Bros Pictures

O maior desafio da DC nunca foi produzir um bom filme. Nesse aspecto, Supergirl cumpre seu papel com competência. Milly Alcock confirma todo o potencial demonstrado anteriormente e entrega uma protagonista carismática, vulnerável e poderosa. Jason Momoa, por sua vez, finalmente encarna o personagem que parece ter sido criado para ele, transformando Lobo em um dos grandes destaques da produção. Já Craig Gillespie conduz a narrativa com segurança, equilibrando espetáculo e emoção com notável confiança.

O verdadeiro desafio estava em convencer o público de que este era um capítulo necessário para o futuro do DCU. Mais do que isso, o filme precisava apresentar Supergirl como algo além de uma simples versão feminina do Superman.

Como grande parte do público desconhece a personagem e suas histórias mais relevantes, a presença de David Corenswet acaba se tornando fundamental. Ao lado de Lobo, seu Superman funciona como uma ponte entre os fãs mais casuais e os espectadores já familiarizados com o novo universo da DC. Não por acaso, ambos desempenham papéis muito relevantes aqui, enquanto inexistentes na obra original.

O roteiro de Ana Nogueira mantém diversos elementos centrais da HQ, incluindo a jornada de Ruthye, o envenenamento de Krypto, o vilão Krem e os traumas da infância de Kara em Krypton. Entretanto, a adaptação direciona esses elementos para uma estrutura mais próxima de um épico espacial de ação.

Supergirl

Milly Alcock e Matthias Schoenaerts em cena de “Supergirl”- Divulgação Warner Bros Pictures

Essa escolha produz alguns dos melhores momentos de Supergirl. As sequências envolvendo teletransporte são criativas, o uso dos poderes apresenta maior maturidade do que em Superman, e a escala dos confrontos transmite uma sensação constante de grandiosidade. Em contrapartida, o terceiro ato sofre com soluções excessivamente convenientes, introduzindo e resolvendo conflitos de maneira rápida demais, o que reduz parte do impacto dramático construído anteriormente.

Também chama atenção a clara influência de outras obras. Além da inspiração evidente em Bravura Indômita, a narrativa incorpora elementos que remetem diretamente a Mad Max: Estrada da Fúria (2015, George Miller). Em alguns momentos, a semelhança vai além da homenagem e se aproxima de uma repetição pouco inspirada de conceitos já explorados com muito mais eficiência por George Miller.

Mesmo atuando apenas como produtor, a influência de James Gunn permanece visível. Algumas cenas de ação utilizam câmera lenta, movimentos circulares e trilhas sonoras nostálgicas de maneira muito semelhante ao estilo que o cineasta consolidou nos últimos anos. Embora isso contribua para a identidade inicial do DCU, também levanta dúvidas sobre a capacidade do universo em desenvolver vozes autorais realmente distintas a longo prazo.

Existe ainda um leve aceno ao modelo estabelecido pelo MCU. O humor está presente, mas em quantidade muito menor do que nos filmes da Marvel. Quando a narrativa exige dramaticidade, o roteiro permite que os momentos emocionais respirem sem interrompê-los constantemente com piadas. Essa escolha funciona especialmente bem por causa da trajetória trágica da protagonista, tornando os conflitos mais humanos e emocionalmente relevantes.

Do lado dos antagonistas, Matthias Schoenaerts entrega um Krem funcional, mas distante dos grandes vilões do gênero. Sua presença lembra, em certa medida, o General Zod de Superman II (1980, Richard Donner), sendo impulsionado principalmente por sua crueldade e desejo de dominação. No entanto, o personagem carece do carisma e da imponência que tornaram aquela interpretação memorável, resultando em um vilão mais marcante visualmente do que dramaticamente.

Matthias Schoenaerts em cena de “Supergirl”- Divulgação Warner Bros Pictures

Tecnicamente, o filme apresenta seu principal problema. Os efeitos visuais oscilam bastante ao longo da projeção e se tornam especialmente frágeis no terceiro ato. Em determinados momentos, a artificialidade dos cenários digitais e da tela verde fica evidente, algo difícil de ignorar em uma produção desse porte e orçamento.

Ao final, Supergirl funciona como um segundo passo sólido para o novo DCU. É um filme competente, divertido e emocionalmente eficiente, sustentado por uma protagonista excelente e por personagens secundários memoráveis. Ainda assim, existe a sensação de que a produção prefere a segurança ao risco. Quando tem a oportunidade de desafiar expectativas ou explorar caminhos realmente novos, opta por soluções familiares.

O resultado é uma aventura grandiosa e satisfatória, mas que raramente alcança o mesmo nível de ousadia que tornou sua obra de origem tão especial.

Distribuído pela Warner Bros. Pictures, Supergirl estreia nos cinemas em 25 de junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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