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Expointer reacende debate sobre bem-estar animal em feiras e competições agropecuárias

Quatro animais morreram durante a edição de 2026 da feira no Rio Grande do Sul, enquanto episódio com cavalo levantou questionamentos sobre os riscos da exposição

Por Redação
Última Atualização 10 de setembro de 2026
8 Min Leitura
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foto: Magnífic
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A morte de quatro animais durante a 49ª Expointer reacendeu uma discussão sobre os limites e as condições de participação de animais em feiras, exposições e competições agropecuárias. O evento terminou em 6 de setembro, em Esteio, no Rio Grande do Sul, após receber mais de 938 mil visitantes.

Durante os primeiros dias da feira, três touros da raça Angus e um cavalo morreram no Parque de Exposições Assis Brasil. Segundo as informações divulgadas, os três bovinos apresentaram sinais clínicos agudos e receberam atendimento veterinário, mas não resistiram.

A relação entre as mortes e a participação dos animais na feira, porém, não pode ser estabelecida sem laudos que apontem as causas. A questão levantada pela organização ambiental Sinergia Animal vai além dos casos específicos e envolve as condições às quais os animais são submetidos durante eventos desse tipo.

Em artigo assinado por Cristina Diniz, diretora-geral da Sinergia Animal no Brasil, a entidade questiona o modelo que transforma animais em parte de exposições, competições, leilões e avaliações comerciais.

A discussão envolve transporte, mudança de rotina, confinamento temporário, contato com grande quantidade de pessoas e exposição a ambientes diferentes daqueles aos quais os animais estão habituados.

A preocupação com o bem-estar durante exposições não se limita ao debate entre defensores e críticos do uso de animais em eventos agropecuários.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul avaliou 60 ovinos de 11 raças no próprio Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em 2011.

Durante cinco dias, os pesquisadores realizaram 1.097 observações dos animais. O estudo identificou diferenças entre as raças e observou alterações especialmente relacionadas aos períodos da tarde e da noite.

As temperaturas mais elevadas também apareceram associadas a parâmetros fisiológicos, como frequência respiratória e temperatura corporal.

De acordo com a análise apresentada pela Sinergia Animal, o estudo apontou que as condições ambientais dos galpões poderiam provocar estresse térmico. Os pesquisadores recomendaram o controle dessas condições para melhorar o conforto dos animais.

A literatura sobre bem-estar em exposições agropecuárias também considera outros fatores relevantes, como transporte, embarque e desembarque, alterações na alimentação e na rotina, além de estímulos sonoros, visuais e olfativos diferentes do ambiente habitual.

A presença de outros animais e o contato com agentes potencialmente patogênicos também fazem parte das preocupações relacionadas ao manejo.

Outro episódio ocorrido durante a Expointer chamou atenção para os riscos de competições envolvendo animais.

Durante uma prova de equinos, uma competidora caiu da sela e o cavalo disparou pela pista. O animal correu em alta velocidade, passou próximo a pessoas e derrubou grades.

Houve preocupação com a possibilidade de o cavalo alcançar áreas onde estavam crianças e outros animais que aguardavam suas provas.

Pessoas presentes tentaram interromper o percurso até que uma menina de 12 anos conseguiu segurar as rédeas e conter o animal.

O episódio terminou sem uma tragédia maior, mas também levantou questionamentos sobre a imprevisibilidade do comportamento animal em situações de competição e diante de grandes públicos.

Para a Sinergia Animal, episódios desse tipo mostram que animais não podem ser tratados como elementos completamente previsíveis dentro de uma estrutura de espetáculo.

A crítica da entidade também aborda uma questão que vai além de acidentes ou doenças: a transformação das características dos animais em critérios de avaliação e valor comercial.

Em exposições agropecuárias, aspectos como conformação corporal, peso, musculatura, linhagem, genética e capacidade reprodutiva podem determinar classificações e influenciar o valor dos animais.

Nesse contexto, um animal pode receber premiações e reconhecimento dentro de uma competição, mas também se tornar mais valorizado comercialmente.

A Sinergia Animal argumenta que essa lógica transforma características do corpo animal em ativos econômicos.

A discussão não significa, necessariamente, que a participação em uma exposição implique maus-tratos. O ponto levantado pela organização é outro: mesmo um animal saudável pode estar sendo utilizado para atender a interesses humanos, seja em competições, reprodução, comércio ou entretenimento.

Essa diferença é importante para o debate sobre bem-estar. A ausência de uma lesão visível não significa necessariamente que todas as condições de manejo sejam adequadas.

As feiras agropecuárias possuem uma forte relação com a cultura rural e com a história de diversas regiões brasileiras. Elas também funcionam como espaços de negócios, divulgação de tecnologias, competições e valorização de atividades ligadas ao campo.

Para a Sinergia Animal, porém, o argumento da tradição não deveria encerrar a discussão sobre a utilização de animais nesses eventos.

A organização defende que práticas tradicionais também podem ser reavaliadas à medida que aumentam os conhecimentos sobre a capacidade dos animais de sentir dor, medo, estresse e desconforto.

A questão colocada pela entidade é se determinadas práticas devem continuar apenas porque fazem parte de uma tradição ou se precisam ser adaptadas diante dos conhecimentos atuais sobre bem-estar animal.

O debate não termina com os casos da Expointer

As quatro mortes registradas na Expointer e o episódio envolvendo o cavalo oferecem um ponto de partida para uma discussão mais ampla.

Não é possível atribuir automaticamente as mortes às condições da feira sem os respectivos laudos. Da mesma forma, um acidente isolado não permite concluir que todas as competições envolvendo animais apresentem problemas de bem-estar.

Por outro lado, transporte, temperatura, alimentação, mudança de ambiente, confinamento e exposição a estímulos incomuns são fatores reconhecidos nas discussões científicas sobre o manejo de animais.

A questão central passa, portanto, por determinar quais condições são oferecidas aos animais e quais medidas são adotadas para reduzir riscos.

Para além da tradição e do valor econômico, permanece uma pergunta ética levantada pela Sinergia Animal: quando um animal participa de uma feira, competição ou exposição, estamos olhando para um patrimônio produtivo ou para um ser senciente que também deve ter seu bem-estar considerado?

O debate está longe de se restringir à Expointer. Ele envolve um modelo de eventos que movimenta cultura, negócios e turismo rural, mas que também precisa lidar com uma questão cada vez mais presente na sociedade: como conciliar as atividades humanas com o cuidado e o respeito aos animais utilizados nesses espaços?

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