Tuesday, October 20, 2020

Alta Fidelidade | Primeiras impressões sobre a série baseada em ‘High Fidelity’ de Nick Hornby

Se você leu aí em cima o nome da série e pensou “ué, mas não era filme?”, você não está errado. Alta Fidelidade (em português) é um filme do ano 2000, estrelado por John Cusack e dirigido por Stephen Frears. O longa virou um clássico, até hoje comentado em rodinhas. Porém, o cultuado filme, que também tem Jack Black no elenco, é uma adaptação do livro homônimo de Nick Hornby. O autor, inclusive, virou mestre em escrever livros que se transformam em filmes: O grande garoto, Fome de bola, Uma longa queda, Juliet, nua e crua, todos esses títulos já podem ser vistos nas telinhas.

Todavia, o foco de hoje é outro livro, aquele que alçou o escritor inglês ao estrelato: Alta fidelidade. O livro de 1995 fez tanto sucesso que, além do filme de 2000, agora ganhou nova roupagem com a série High Fidelity.

Afinal, qual é a história?

Criada por Sarah Kucserka e Veronica West, a série da Hulu se baseia no livro, mas também faz homenagem ao filme. Lançada 20 anos após o longa, ela escolhe manter algumas situações que acontecem nele, mas não existem no livro. A saber, High Fidelity conta a história de Rob Brooks, interpretada por Zoë Krevitz. Sim, uma mulher! Em contraste com a trama original, encabeçada por um homem. Portanto, Robert Gordon se transformou em Robin Brooks.

O restante da história base, porém, não muda muito. Ela é dona de uma loja de discos, entende muito de música e tem seu coração partido logo no início do primeiro episódio: Mac (Kingsley Ben-Adir), seu namorado, termina com ela. As criadoras quiseram abordar a perspectiva feminina da mulher nas questões de relacionamento, mas também mostrar que, apesar de suas diferenças, homens e mulheres passam por questões semelhantes.

Só pra ilustrar, dê uma olhadinha no trailer da série (e siga lendo):

Além de Rob, a série tem como personagens Cherise (Da’Vine Joy Randolph) e Simon (David H. Holmes), que trabalham na loja com ela. Diferente do livro ou do filme, os personagens têm mais profundidade e não são unidimensionais. Talvez por ter mais tempo de tela do que as menos de duas horas do filme, haja mais oportunidade para desenvolver suas histórias. A amizade entre os três, Rob, Cherise e Simon, não só é mais forte na série, bem como isso torna o desenvolvimento de algumas tramas mais interessantes.

A mania de criar listas (top 5) de diversos temas, principalmente musicais, contudo, continua presente e é ponto positivíssimo da série. Os top 5 musicais que o trio cria são cheios de obras primas que dá vontade de sair correndo pra escutar. Ou seja, isso significa que a trilha sonora é uma beleza, e bastante diversa – tem até música brasileira! Como um dos focos da série é exatamente a paixão por música, esse fator não poderia ser diferente. A música é ponto de partida para várias situações – e, algumas vezes, ponto final também.

Ah, o amor…

Porém, não é com uma lista de músicas que Rob tem o primeiro contato com o espectador, e sim com uma lista de piores fins de relacionamentos. Com a quebra da quarta parede (quando o personagem olha diretamente para a câmera e conversa com o espectador), algo que também acontecia no filme de 2000, Rob nos conta sobre as cinco pessoas que destroçaram seu coração, da infância até os dias atuais. Assim começamos a conhecer melhor a personagem e sua vida.

Essa conversa com o espectador que Rob mantém ao longo de todos os episódios facilita com que entremos de cabeça no mundo da série. Cria uma intimidade que nos faz sentir parte de todas as sensações, emoções e climões. Sim, porque não é só de coisas positivas que um relacionamento é composto. Aliás, na série, assistimos vários lados negativos, o que só nos faz ter mais empatia por Rob. Por muitas vezes, nos sentimos a própria Rob. Afinal, quem nunca se estropiou por amor? É o dia a dia do jovem moderno, não é mesmo? Mas relaxa que tem tantos momentos legais quantos ruins (até mais) e seu coração vai ficar quentinho em vários episódios.

 A tão falada – e imprenscindível – diversidade

Algo muito evidente na série é a presença de diversidade. Em um mundo tão clamante por representatividade de suas minorias, High Fidelity se mostra ligada em seu tempo e apresenta diversidade de cores, nacionalidades e orientação sexual. O simples fato de a protagonista ser uma mulher negra e bissexual já demonstra o quão atenta ao mundo atual ela é.

Decerto é importantíssimo, por exemplo, Cherise, uma mulher gorda, ir além do estereótipo do alívio cômico, como pessoas gordas sempre foram utilizados no audiovisual, e demonstrar também suas fragilidades. Assim como é extremamente relevante o fato de pelo menos 50% do elenco, entre personagens principais, secundários e figurantes, ser de pessoas negras. Isso vai de contraponto ao longa, formado por personagens brancos cis heteros (com exceção da personagem Marie De Salle, interpretada por Lisa Bonet, mãe de Zoë Kravitz), algo comum no ano 2000. Porém, em 2020, produções com essas mesmas características não são mais aceitáveis.

Além disso, outro ponto positivo da série é quebrar estereótipos de gêneros. Em uma cena maravilhosa em um bar, Rob e seu amigo Clyde (Jake Lacy) conversam sobre música com um homem. Ele insiste em focar sua atenção em Clyde, certo de que é, entre os dois, quem domina o assunto. Porém, depois de muito ser ignorada, Rob dá uma aula de conhecimento musical para o homem, que não tem mais nada a fazer além de ficar calado. Lindo.

Esse é só um dos exemplos das sacudidas que pessoas que tendem a reduzir as mulheres a certas características podem tomar. Sem dúvida há outros. Clyde, inclusive, é um personagem que nos faz repensar as ideias pré-concebidas que temos de cada gênero. Ele não se limita a configuração do homem tradicionalmente encontrado na sociedade. No entanto, não posso falar mais, senão vou acabar dando spoiler!

Atualidade

No mais, High Fidelity é uma série que conseguiu transpor com sabedoria uma história de 25 anos aos tempos atuais. Tenho certeza que qualquer jovem da Geração Y (e alguns da Geração Z) vai se identificar com as questões e pensamentos de Rob.

Por fim, como falar de Alta Fidelidade e não fazer uma lista é quase uma afronta, segue uma lista das Top 5 influências da série, segundo uma das criadoras, Sarah Kucserka, em entrevista dada à Entertainment Weekly:

5. O filme Empire Records (1995), de Allan Moyle;

4. O filme Caindo na real (1994), de Ben Stiller;

3. O album Talking Book (1972), de Steve Wonder;

2. O album The man who sold the world (1970), de David Bowie;

1.O livro Alta Fidelidade (1995), de Nick Hornby.

A saber, High Fidelity está na plataforma Starzplay e os episódios saem toda quarta-feira. Até agora foram lançados seis episódios; são 10 ao todo – fique ligado para a crítica ao fim série. Infelizmente, a Hulu já anunciou que a série foi cancelada – o que rendeu uma reclamação de Zoë, que é também produtora executiva, assim como o autor do livro, Nick Hornby. As criadoras, porém, seguem com esperança de que, devido aos pedidos dos fãs, a Hulu volte atrás na sua decisão. Por aqui, sigo esperando o mesmo.

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