Dirigido por Beto Marques, Furnas Fundas transita entre a comédia e o horror caricato para cativar sua audiência, mas tropeça em uma narrativa que abraça todos os clichês
A união entre horror e comédia dentro do cinema é uma questão mundial. Se voltarmos no tempo, encontramos essa mistura até mesmo nas produções de Georges Méliès. Existe algo nessa combinação entre os dois gêneros que amplia o teor satírico e consegue, inclusive, atrair diferentes públicos, proporcionando uma quebra bem-vinda nos momentos de maior tensão. Furnas Fundas se apropria bastante desse recurso, talvez até demais.
Com uma estrutura que se assemelha muito a uma peça de teatro no estilo de O Bem-Amado, o filme gira, em primeiro plano, em torno de uma disputa política na cidade de Furnas Fundas. Em segundo, acompanha um grupo de vampiros que deseja ressuscitar seu líder, fundador da cidade, para conquistar poder sobre a região.
Tecnicamente, o filme se apoia bastante na sátira e no exagero, elementos aplicados praticamente a tudo: nas expressões faciais dos atores, nos diálogos, na movimentação dos intérpretes diante da câmera estática, no nome do partido, PQP, e em tantas outras escolhas que compõem esse universo fabulesco.
Por conta desse esculacho generalizado, quando chega o momento de o horror brilhar, o espectador já está tão acostumado aos exageros que dificilmente consegue levá-lo a sério, ampliando apenas o riso. O que deveria ser aterrorizante acaba se transformando em um pastiche daquilo que poderia ser.

Cena de “Furnas Fundas”- Divulgação Capuri Filmes
Os vampiros deveriam representar forças a serem consideradas, mas suas regras nunca são devidamente apresentadas. Diferentemente de Continente (2024, Davi Pretto), eles acabam caindo na galhofa. É o que acontece, por exemplo, no momento em que Isabel olha para Rosalia e relembra sua tia, enquanto uma luz amarela cobre toda a tela. É justamente aí que surge a necessidade de analisar um pouco mais as escolhas cromáticas do filme.
Preto e branco, amarelo, verde, azul e a própria cor naturalista. O longa apresenta variações constantes entre essas diferentes formas de representar uma cena, quase como se a pergunta fosse “qual ficaria mais bonito neste momento?” em vez de “qual serviria melhor a este momento?”. Essas escolhas ampliam a sensação de que a produção não deveria se levar a sério, quando na verdade, ela precisaria fazê-lo em determinados momentos.
O potencial de sátira política de Furnas Fundas é enorme. A hipocrisia presente nas campanhas, as traições, a corrupção, o pensamento de rebanho e tantos outros elementos poderiam render uma crítica muito mais contundente. Porém, ao final, quase tudo é reduzido a piadas curtas e engraçadas. Até mesmo a situação do carro que captura os bêbados nas ruas poderia receber maior destaque, mas acaba servindo apenas como gatilho narrativo para um plot twist final que possui bem menos força do que aparenta acreditar ter.
Esse desperdício de Furnas Fundas como um exercício de luxo estético me faz lembrar de outro filme independente de vampiros que também mistura terror e comédia: Quando o Sangue Flui (2024, Cainã De Paulo e Pedro Valle). Enquanto essa produção apresenta um rumo e um direcionamento mais claros, o longa de Beto Marques parece querer ser um épico. A forte trilha sonora contribui para essa sensação, assim como a evidente homenagem ao Expressionismo Alemão que nos trouxe Nosferatu (1922, F. W. Murnau).

Cena de “Furnas Fundas”- Divulgação Capuri Filmes
O problema é que Furnas Fundas se apoia tanto em suas inspirações que acaba esquecendo de construir algo genuinamente seu. A confusão cromática pode ser bela, mas permanece vazia quando não encontra uma função narrativa ou simbólica que a sustente.
A estética teatral e seus personagens caricatos, que revelam informações, provocam reflexões e até morrem de uma hora para outra, mesmo quando isso não parece fazer sentido, tornam-se algumas das marcas mais frágeis do longa. Afinal, apesar de ter levado três anos para finalmente chegar aos cinemas, existe um cuidado fotográfico evidente, capaz de ampliar essas situações com uma grandiosidade quase hollywoodiana. A ampla distância focal e os planos estáticos permitem que os atores ocupem o quadro e expressem toda a teatralidade proposta.
Mas nada disso é suficiente quando a narrativa não consegue acompanhar a força de sua construção visual. Os personagens permanecem rasos e caricatos, sustentados justamente pelos estereótipos que o cinema já apresentou inúmeras vezes.
A mocinha, o caçador de vampiros, o político de direita, a amante inocente, a esposa traída, o covarde segundo em comando, a líder dos vampiros, entre tantos outros. São figuras que já vimos e revimos em diferentes formas e que, em outras circunstâncias, poderiam se tornar marcantes. Aqui, porém, desaparecem dentro da própria caricatura e terminam tão vazios quanto começaram.
Ao final, sequências belíssimas e uma estética cuidadosamente construída não são suficientes para transformar Furnas Fundas em uma fábula gótica realmente memorável. Existe uma produção interessante escondida por trás de toda essa exuberância, mas a comédia fica no limiar entre o clássico e o desconfortável, parecendo que o filme não consegue ultrapassar as próprias referências, clichês e escolhas visuais, para assim finalmente morder o espectador.
Distribuído pela Capuri Filmes, Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira está em cartaz nos cinemas desde 17 de setembro.
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