Sunday, February 28, 2021

#eagoraoque | Crítica da crítica social na 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

“#eagoraoque” aparenta ser um documentário – e é, mas junto disso é notável uma certa ficção demonstrando os atritos entre um filósofo, Vladimir Safatle, seu pai, o diretor Jean-Claude Bernardet e sua filha. O mais curioso desse filme é a posição ambígua entre fazer uma crítica social e fazer uma crítica da crítica social. Tudo parece meio nebuloso e extra pretensioso para um filme que tenta atacar justamente esse tipo de hegemonia academicista no pensamento de esquerda brasileiro. 

Ser de esquerda, principalmente num país dadaísta como o Brasil, é difícil pacas. Você precisa ler mil livros do século XIX sem esquecer os autores contemporâneos, ter um lugar de fala e saber se conter a esse espaço, destilar paciência com a extrema direita neo-nazista e ainda por cima ter ódio do próprio privilégio além de uma autocrítica suicida. Pra ser de direita você só precisa jogar CS com outros adolescentes machistas ou votar num candidato que apoia a “família”; não dá trabalho nenhum e a maior parte da população acharia isso perfeitamente normal.

Filosófico

“#eagoraoque” lembra muito Malmkrog em termos de frustração teórica e temática. É outro filme profundamente filosófico que não faz nada com toda a inteligência acumulada; a grande diferença é que Malmkrog tem 3:20h de duração e no final você odeia todos os personagens ao invés de odiar apenas o protagonista. Todo o momentum construído durante o filme não se realiza, nenhum comentário sério é feito além de “ser muito inteligente é difícil porque ninguém concorda contigo”.

De longe, o melhor é a hipocrisia de Safatle, o personagem de homem abertamente liberal que apresenta um pensamento exclusivamente teórico que põe freio em toda força modificadora em nome de um socialismo utópico. No papel, Safatle está certo, mas esse discurso conservador de esquerda só atrapalha toda a movimentação de ideias e ações que estão ocorrendo no filme e no mundo real.

Atropela

Uma das cenas mais surreais do filme é quando Safatle sai do personagem ao ser chamado de fascista na cara. A incapacidade de argumentar contra isso é o que mais o perturba, mesmo como uma versão de si, Safatle entende que esta é a realidade. Usar seu espaço na mídia torpedeando todas as ideias progressistas permitiu que a onda fascista atropelasse o Brasil.

Por fim, “#eagoraoque” mostra uma teoria constantemente atropelada pela prática. Safatle tenta desesperadamente uma conciliação de classe sem fazer nada para que isso aconteça. Todas as suas falas são cortadas, ignoradas e amplamente irrelevantes num momento onde discutir o moral se tornou irrelevante. Apesar de toda a auto congratulação quanto ao estado do discurso liberal, falta uma resolução, ou um grito de ação. O filme terminar num clima tenso entre o teórico e os jovens da quebrada só serve para delinear as diferenças intransponíveis entre elite e povo sem agregar absolutamente nada.

Afinal, veja o trailer:

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4.9
#eagoraoque

A crítica da crítica que no final não faz nada

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