Em um momento em que o debate sobre o uso dos espaços públicos e o acesso à cultura ganha cada vez mais relevância no Rio de Janeiro, a Grande Companhia Brasileira de Mystérios e Novidades volta a transformar a Praça da Harmonia, na Gamboa, em um grande palco de celebração popular. No dia 17 de julho, a partir das 17h, a tradicional ManiFesta Julina promete reunir moradores, artistas e visitantes em uma programação gratuita que mistura teatro, música, dança, gastronomia e manifestações da cultura popular brasileira.
Realizado anualmente pela companhia, o evento tem como eixo central o Ditirambo de São João Xangô Menino, Santo Antônio e São Pedro, espetáculo-processo que dialoga com as festas juninas brasileiras e com as matrizes afro-brasileiras presentes na formação cultural do país. Mais do que uma festa típica, a iniciativa reafirma o papel da arte como instrumento de ocupação democrática da cidade e de fortalecimento dos vínculos comunitários na região da Pequena África.
Fundada pelo diretor e dramaturgo Amir Haddad, a Grande Companhia Brasileira de Mystérios e Novidades é uma das principais referências do teatro de rua brasileiro. Desde a década de 1980, o grupo desenvolve um trabalho voltado para intervenções urbanas e espetáculos em espaços públicos, defendendo que a cidade deve ser vivida como um território de encontro entre artistas e população. Essa filosofia transforma cada apresentação em uma experiência coletiva, aproximando espectadores e performers sem as barreiras tradicionais do teatro convencional.
A escolha da Praça da Harmonia não é casual. Localizada na Zona Portuária, região marcada pela forte presença da cultura afro-brasileira e reconhecida como parte da histórica Pequena África, a praça tornou-se um dos principais espaços de atuação da companhia. Para o grupo, o local representa muito mais do que um cenário: é um símbolo da memória cultural da cidade e um espaço permanente de convivência e criação artística.
Sob direção artística de Lígia Veiga, a programação deste ano reúne 25 barracas de comidas típicas, além de apresentações que percorrem diferentes linguagens da cultura popular. O público poderá acompanhar a tradicional Quadrilha nas Alturas, apresentações do DJ Tata Ogan, a Roda do Boizinho Estrelinha, comandada por Cacau Amaral, o Forró com a Tocaia, o Forrobodó da Orquestra Uirapuru, o Teatro em Cordel, com Edmilson Santini, além das intervenções da Casa das Máscaras e do animado Baile do Cacuriá, conduzido pelos coletivos Três Marias e Matuba.
Uma das atrações mais aguardadas continua sendo o irreverente Correio do Amor, realizado pela Cia. dos Bodres, que leva humor e interação ao público durante toda a festa. Outro momento tradicional será a celebração dos casamentos juninos. Segundo Lígia Veiga, um casal oficializará sua união durante a quadrilha, em uma cerimônia simbólica conduzida sob a bênção de Santo Antônio, conhecido popularmente como o santo casamenteiro.
A proposta da ManiFesta Julina vai além do entretenimento. Para a companhia, ocupar a praça com manifestações culturais significa reafirmar que os espaços públicos pertencem à população e devem permanecer como locais de convivência, diversidade e produção artística. Em uma época marcada por disputas sobre o uso da cidade, a festa transforma a Praça da Harmonia em um verdadeiro “teatro-terreiro”, conceito que une tradição popular, celebração coletiva e resistência cultural.
Essa perspectiva também dialoga com a trajetória do grupo na defesa da arte pública. Ao longo de décadas, a Companhia de Mystérios construiu um repertório que valoriza cortejos, festas populares e grandes espetáculos de rua, aproximando diferentes comunidades da produção artística e reafirmando o papel da cultura como elemento essencial da vida urbana.
A própria escolha dos santos homenageados carrega forte simbolismo. Enquanto São João, São Pedro e Santo Antônio representam as tradicionais festas julinas brasileiras, a associação com Xangô Menino estabelece um diálogo entre o catolicismo popular e as religiões de matriz africana, refletindo o sincretismo religioso que caracteriza boa parte das manifestações culturais brasileiras, especialmente na região da Pequena África.
Ao lado de moradores, comerciantes, quituteiras e coletivos culturais da Zona Portuária, a Companhia reafirma que a cidade pode ser um espaço permanente de encontro e criação. Como costuma provocar o diretor Amir Haddad, uma das grandes referências do teatro brasileiro: “A cidade é para quem vive nela ou para quem vive dela?” A pergunta sintetiza o espírito da ManiFesta Julina, que transforma uma simples praça em um espaço de celebração, memória e participação coletiva.
Com entrada gratuita, o evento conta com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, da Cury Construtora, da Guerrilha da Paz e do Armazém Cultural das Artes.
Serviço – Ditirambo de São João Xangô Menino, São Pedro e Santo Antônio – ManiFesta Julina
Data: 17 de julho de 2026 (sexta-feira)
Horário: A partir das 17h
Local: Praça da Harmonia – Gamboa – Rio de Janeiro
Entrada: Gratuita
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