O cinema brasileiro entrou oficialmente no clima das eleições de 2026. Mas, desta vez, a disputa não acontece nas telas. Oito entidades do audiovisual se uniram para criar a Bancada da Pipoca, uma plataforma que pretende aproximar eleitores de candidaturas comprometidas com o futuro do cinema e da produção audiovisual no país.
A iniciativa é apartidária e reúne candidatos à Presidência da República, ao Senado e à Câmara dos Deputados. Quem decide aderir precisa assumir compromissos com uma agenda de políticas públicas para o setor. Depois da conferência das informações, a candidatura recebe um selo e passa a aparecer em uma plataforma pública de consulta.
Até 17 de agosto, 20 candidaturas de sete partidos e quatro estados já haviam aderido ao movimento.
A ideia é simples: antes de escolher em quem votar, o eleitor interessado no cinema brasileiro pode descobrir quais candidatos estão dispostos a defender pautas consideradas estratégicas pelo setor.
Para as entidades que criaram a Bancada da Pipoca, o audiovisual não pode ser tratado apenas como entretenimento ou como uma área dependente de iniciativas pontuais de cada governo.
O setor movimenta aproximadamente R$ 27 bilhões por ano, o equivalente a 0,5% do PIB brasileiro, e gera mais de 300 mil empregos diretos e indiretos. A atividade também arrecada cerca de R$ 9 bilhões anuais em tributos.
O impacto vai muito além das produtoras e dos sets de filmagem. Uma produção pode movimentar profissionais e empresas de áreas como transporte, turismo, alimentação, tecnologia e serviços.
Estudo da consultoria internacional Olsberg/SPI citado pelas entidades aponta que até 67% dos custos de uma produção audiovisual são direcionados a outros segmentos da economia.
É justamente por esse impacto que o movimento defende uma política de Estado para o audiovisual, com planejamento, continuidade e segurança jurídica.
“O audiovisual é uma área importante da indústria, tanto por seu caráter econômico como por seu caráter cultural e potencial simbólico. Precisamos de uma verdadeira política de Estado para seu desenvolvimento, e não apenas ações intermitentes de governo”, afirma Matheus Peçanha, diretor Sudeste da API (Associação dos Produtores Independentes do Audiovisual Brasileiro).
A agenda defendida pela Bancada da Pipoca reúne questões que estão entre os principais debates atuais da indústria audiovisual.
Uma delas é a regulamentação dos serviços de streaming. A discussão sobre as regras para plataformas digitais avançou no Congresso, mas ainda enfrenta obstáculos no Senado.
Outro ponto envolve o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). As entidades defendem o descontingenciamento dos recursos destinados ao setor para garantir maior capacidade de financiamento e desenvolvimento da produção brasileira.
A inteligência artificial também entrou na pauta.
Com ferramentas capazes de gerar imagens, vozes, roteiros e outros conteúdos, o setor busca regras que protejam direitos autorais e propriedade intelectual sem impedir o desenvolvimento tecnológico.
A Bancada da Pipoca também defende a ratificação de acordos de coprodução internacional já assinados pelo Brasil e a revisão de pontos da reforma tributária que possam gerar insegurança para empresas e profissionais do audiovisual.

Outro compromisso envolve a criação de um regime especial de proteção social para trabalhadores da cultura.
Apesar do nome inspirado em uma das marcas mais tradicionais de quem vai ao cinema, a Bancada da Pipoca não pertence a nenhum partido.
A proposta é justamente reunir candidaturas de diferentes legendas em torno de uma agenda comum para o setor.
As candidaturas precisam se cadastrar na plataforma utilizando os mesmos dados registrados na Justiça Eleitoral. As informações são conferidas pela equipe responsável antes da aprovação.
Depois de certificadas, elas passam a integrar a consulta pública.
O eleitor pode pesquisar os candidatos por cargo e estado e verificar quais nomes aderiram à agenda. A plataforma também permite gerar um selo de apoio para compartilhamento nas redes sociais.
Para Mauro Garcia, presidente executivo da BRAVI (Brasil Audiovisual Independente), a iniciativa pode ir além do período eleitoral.
“A Bancada da Pipoca é uma ferramenta importante não somente para buscar adesão de candidaturas político-partidárias ao fortalecimento do audiovisual brasileiro, mas também para já iniciar a construção de uma nova frente parlamentar de apoio ao cinema e audiovisual no Congresso Nacional”, afirma.
Cinema brasileiro tenta transformar cultura em política de Estado
A criação da plataforma acontece em um momento em que o audiovisual brasileiro discute como garantir continuidade para políticas públicas, financiamento e regulação em um mercado que passa por profundas transformações.
O setor independente convive com dificuldades de acesso a recursos, mudanças regulatórias e períodos de descontinuidade de políticas públicas.
A Bancada da Pipoca tenta colocar essas questões no radar dos candidatos antes que as urnas definam a próxima composição dos poderes Executivo e Legislativo.
A agenda foi construída a partir de demandas de profissionais, produtoras independentes, trabalhadores da cultura e entidades representativas. O documento está dividido em cinco grandes áreas: regulação e segurança jurídica; financiamento e desenvolvimento econômico; internacionalização; trabalho e formação; e infraestrutura, difusão e memória audiovisual.

Na prática, o movimento quer fazer com que o cinema e o audiovisual deixem de aparecer apenas como uma pauta cultural e passem a ser discutidos também como indústria, fonte de empregos, área de inovação e instrumento de projeção internacional do Brasil.
Quem está por trás da Bancada da Pipoca?
A iniciativa reúne oito entidades do audiovisual brasileiro: ABRA (Associação Brasileira de Autores Roteiristas), ABRACI (Associação Brasileira de Cineastas), ABRANIMA (Associação Brasileira de Empresas Produtoras de Animação), API (Associação dos Produtores Independentes de Audiovisual), APACI (Associação Paulista de Cineastas), BRAVI (Brasil Audiovisual Independente), CONNE (Conexão Audiovisual Centro-Oeste, Norte e Nordeste) e SICAV (Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual).
A plataforma já está disponível para consulta pública e deve ganhar novos nomes à medida que outras candidaturas aderirem à proposta.
No fim das contas, a pergunta da Bancada da Pipoca é direta: quais candidatos estão dispostos a defender o cinema brasileiro quando as câmeras estiverem desligadas e a política pública precisar entrar em cena?
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