Sunday, September 25, 2022

‘Um Lugar Bem Longe Daqui’ é força feminina sensível e resiliente

Um Lugar Bem Longe Daqui (Where The Crawdads Sing) é um filme literário. Não somente por ser baseado em um livro, um romance best-seller de Delia Owens, mas pelo seu estilo, pela sua beleza, pela poesia pantanosa que persiste e sua profundidade.

Como diria um crítico que conheço “um filme tem que saber entrar”. Esse sabe entrar – e sabe sair. As cenas iniciais, com lindos planos abertos mostrando as belezas do pântano enquanto uma ave sobrevoa dizem muito sobre o longa. A fotografia de Polly Morgan encanta, ao usar bem a iluminação daquele tipo de terreno tão misterioso para exaltar o tom de suspense, tristeza e beleza que o filme. solicita. É envolvente.

O espectador conhece e se importa com a protagonista Kya. Uma garota que convive com o abandono desde a infância e que cresceu sozinha até a idade adulta nos pântanos da Carolina do Norte. Enquanto isso, rumores e lendas sobre a “Menina do Brejo” percorrem Barkley Cove, isolando ainda mais Kya da comunidade, ou seja, da sociedade, que vai se mostrando cruel, preconceituosa e sexista.

Entretanto, a jovem acaba conhecendo um rapaz e se abre para um mundo novo. Em seguida, outro surge em sua vida, mas acaba sendo encontrado morto. Logo ela é apontada pela comunidade/sociedade como a principal suspeita.

Resiliência

A atriz que vive Kya criança, Jojo Regina, entrega fofura, carisma e talento. Por outro lado, Daisy Edgar-Jones vai além com a protagonista na fase adulta: vulnerabilidade e ingenuidade com resiliência e adaptabilidade. Ela trabalhou duro para suprimir seu sotaque londrino e se transformar na “menina do brejo”.

Há uma solidão que emociona. A personagem principal é solitária, mas ao mesmo tempo não, ela tem o pântano, em verdade, ela é o pântano, é aquele ecossistema que se autoalimenta dotado de um fascínio selvagem. Ela faz arte, ela é arte, assim como a natureza.

A forma como a montagem e a direção colocam os acontecimentos passados e presentes, e como é um drama sobre uma mulher que foi abandonada por tudo e todos e, ao mesmo tempo, um filme de tribunal, é cativante. Mantém o espectador atento.

Daisy Edgar-Jones envolve o público (divulgação Primeiro Plano)
Daisy Edgar-Jones envolve o público (divulgação/Primeiro Plano)

Um Lugar Bem Longe Daqui consegue ter lirismo e suspense. Além disso, é uma ode ao pântano, à mulher e essa necessidade de possuir modos inventivos para sobreviver a tudo que possa surgir.

O pântano é um tipo de ecossistema com planícies parcial ou totalmente inundadas, cobertas com uma vegetação densa e um solo cheio de matéria orgânica. É essencial para a manutenção e sobrevivência dos seres vivos e habitat de uma infinidade de aves, peixes e outros organismos aquáticos. Kya tem a força da natureza ao seu lado e a proteção contra tempestades, enchentes.

Lágrimas

Chorei algumas vezes. Contudo, o filme atinge o público feminino com ainda mais eficiência, pois esse é o lugar de fala proposto. A mocinha não é uma indefesa que precisa da proteção masculina.

A equipe de filmagem é exclusivamente feminina e a de produção majoritariamente feminina – e isso faz toda a diferença. Uma das produtoras é Reese Witherspoon, vencedora do Oscar de Melhor Atriz por Johnny & June, em 2006. A direção de Olivia Newman fornece imagens belas e simbólicas usando o reflexo das águas, os cenários esplendorosos que o pântano oferece. Ademais, mantém o público ligado e torcendo por Kya. O roteiro de Lucy Alibar procura não deixar furos e oferece bons plot twists, até previsíveis, mas o que importa é como a história é contada.

Um Lugar Bem Longe Daqui é sobre sobrevivência e uma sociedade sexista, cruel e que subestima as mulheres, a força feminina, sua capacidade de superaação. É sensibilidade e poder. É sagrado feminino. O julgamento que vemos no filme, como a própria personagem coloca em uma cena na cela, é sobre a comunidade que sempre a excluiu.

Taylor Swift

Após o fim, fiquei sentado vendo os créditos subirem, embalado numa canção melancólica cuja melodia me fez permanecer sentado. Era “Carolina”, de Taylor Swift, música que traduz muito bem a película, entre névoas, riachos e solitude. Ela compôs especialmente para o filme usando instrumentos da época em que a história se passa (anos 60) para criar.

Um Lugar Bem Longe Daqui é um livro no qual mergulhei fundo quando o li anos atrás. Assim que soube que tinha um filme em andamento estrelado pela incrível Daisy Edgar-Jones e produzido pela brilhante Reese Witherspoon, eu soube que queria fazer parte dele do lado musical. Eu compus a música ‘Carolina’ sozinha e pedi ao meu amigo Aaron Dessner para produzi-la. Eu quis criar algo inquietante e etéreo para combinar com essa história hipnotizante”, afirmou Swift.

Afinal, o lugar de fala do longa é feminino, mas a personagem é universal. Chorei diversas vezes com o longa-metragem e foi uma delícia sentir tais emoções. O final é resultado de toda a construção que se desenrola e nos faz rever a jornada de Kya.

Enfim, Um Lugar Bem Longe Daqui é Sétima Arte que conecta e une amor, arte e morte na natureza amoral. Estreia dia 1º de setembro nos cinemas.

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